Sunday, December 31, 2006

Maniqueísmos

Maniqueísmo - s. m., doutrina do persa Manes (215-275), segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios opostos e inconciliáveis, o do bem e o do mal; seita criada em torno desta doutrina; por ext. doutrina fundada em princípios antagônicos (fonte: Priberam - Dicionário da Língua Portuguêsa OnLine).

No Brasil vivemos um maniqueísmo na doutrina política: uma divisão entre esquerda e direita, sem possibilidade de uma posição centrista, ou de posições intermediárias. Isso para não dizer que a direita virou um sinônimo - impróprio - de ditadura, ou que só é politicamente correto ser de esquerda. Ser esquerda virou unanimidade, e qualquer unanimidade acaba sendo burra...

Não concordar com Lula não significa aprovar Bush, o mundo não é tão simples assim; desaprovar Bush não significa aprovar Chávez, perceberam como é complicado e difícil julgar posicionamentos baseados em ser de esquerda ou de direita? Eu não me considero nem uma coisa, nem a outra. Julgo as atitudes em termos dos meus padrões, aprovando ou desaprovando pessoas ou atitudes em conformidade com eles. E acho que esse é o caminho certo!

Sunday, November 19, 2006

Complementando o último post...

Parece que a medida antipática que deveria controlar o acesso na internete foi retirada da pauta no Congresso Nacional. O meu ponto de vista é que esse tipo de medida não atinge quem deveria realmente atingir - porque os que cometem crimes sabem como burlar estes tipos de controle - e acaba só atrapalhando a vida de quem nada fez e nada deveria temer.

Louve-se a coragem do nosso Ministro da Justiça que, citando pensador inglês, disse que "a imprensa não tem obrigação de ser justa; só de ser livre" - se a frase não foi exatamente essa, foi mais ou menos essa. A julgar pelas acusações que andaram fazendo contra a imprensa brasileira na Venezuela acredito que provavelmente teremos um novo ministro da justiça no segundo mandato.

Imprensa é uma coisa que realmente atrapalha. Sem ela fica muito mais fácil governar para incultos ou para analfabetos funcionais completamente desinformados. O poder tem dessas coisas, ele desperta essa tendência, esse desejo incontrolável de impor uma verdade única, a "nossa" verdade.

Wednesday, November 08, 2006

Quem não deve, não deve(ria) temer

Esse título se refere as noticiadas medidas em andamento no Congresso Nacional para aprovação de lei que discipline e controle o acesso à internete no Brasil. Diz o mote que "quem não deve, não teme", ao qual eu acrescentei por minha conta e risco esse "não deve(ria) temer".

Eu diria que a conta é minha, mas o risco é desse país; tenho muito medo das medidas bem intencionadas, muitas delas escondem objetivos que vão além da boa intenção. O que se quer realmente proteger está mascarado com outros objetivos ditos de interesse público. Alguém (algum deputado ou senador) se achou prejudicado e resolveu legislar sobre o assunto.

A internete é um ambiente realmente anárquico e, não sei ao certo, até que ponto a auto-regulamentação ou a lei da menor interferência não dá melhores resultados do que essas tentativas intervencionistas e de controle. Para você ter uma idéia, alguns órgãos da imprensa chegaram a afirmar que o projeto proposto ia tornar a internete brasileira tão controlada como a "democrática" internete chinesa.

É melhor dar tempo ao tempo e deixar a idéia amadurecer mais...

Saturday, September 16, 2006

Armadilhas

O número de internautas está crescendo exponencialmente aqui no Brasil, e o número de golpes aplicados na internet também. Eu tenho uma teoria simples e direta: "se os caras usam é porque funciona", ou seja, se os vigaristas insistem nessas técnicas, é porque elas dão resultados - essa é uma premissa do marketing, que funciona para qualquer coisa.

Esses tempos eu escrevia contra o “spamming”, essa técnica de enviar emails para milhões de usuários através de listas que são oferecidas pelos próprios “spammers”. Seria muito fácil acabar com o spamming e os spammers, sem precisar de leis ou do que quer que fosse: bastaria que os próprios usuários tornassem o spamming ineficiente.

O raciocínio é simples: o spamming é uma técnica de marketing que oferece à venda uma porcaria qualquer, para milhões de pessoas através de uma lista de email. Se nenhuma dessas pessoas comprasse a porcaria oferecida, o spamming se tornaria ineficiente como forma de vendas e perderia a razão de existir. Se ele existe até hoje é porque existem os babacas que compram, logo…

Mas, voltando aos ataques, que são perpetrados através de emails enviados como se fossem comunicados oriundos de órgãos do governo ou de instituições com grande número de usuários (Gmail, Hotmail, Orkut, Bancos, etc.), sempre com uma mensagem babaca dizendo que você precisa tomar uma providência qualquer quanto à sua conta. Algo do tipo: "Para atualizar basta CLICAR NOS LINKS ABAIXOS."

Aí está o pega ratão! Não, não adianta colocar o mouse sobre o link e tentar conferir sua suposta origem lendo na barra de mensagens do browser para tentar saber aonde vai o link, essa providência é inútil: se o vigarista usou um comando parecido com ON_MOUSE_ON, MESSAGE =, ou seja, quando o mouse estiver sobre a mensagem, o que você lerá será o texto que o autor do email quiser, e não a origem real do link! Ele coloca um link para um arquivo executável espião que vai infestar a sua máquina e aparece no link que é para uma outra instituição qualquer.

Como norma: NUNCA CLIQUE EM LINKS QUE VEM COMO ANEXO DE MENSAGENS DESSE TIPO. Se você precisar realmente acessar a alguma instituição, digite na barra de endereços do browser o endereço, por exemplo: http://domrs.wordpress.com/ é o endereço desse blog, se você digitar na barra do browser - navegador - o único lugar que você vai acessar é esse blog.

E lembre-se, não faça nada apressadamente na web, aja com cautela e em dúvida não ponha em risco a segurança da sua máquina e dos seus dados.

Combinado?

Monday, June 05, 2006

Orgulho besta...

Quero ser ator nesse palco da vida. Não nasci para ser coadjuvante, quero ser protagonista. De que vale esse orgulho besta, esse sentimento de quem sabe os melhores caminhos (para o páis) se somos minoria. Não nos cabe escolher caminhos, determinar destinos, nossas mãos estão atadas, nossos olhos cegados, nossos caminhos não levam ao destino certo. Somos conduzidos pela manada (que é a maioria) ignara que caminha para o abismo, de que vale avisar ao irracional que esse caminho é o da perdição? Segue a boiada, toca a manada, para um fim que está próximo...

Thursday, May 18, 2006

Dificuldades

Estou no mecanismo do Bloggar, tentando com ele facilitar a forma de atualizar os meu blogs no Blogger. Não sei o que houve no meu Firefox, algum problema com o programa que não consegue abrir corretamente os meus blogs do blogger americano. Estou desconfiado de um add-on, de uma api com um calendário que coloquei junto com o browser, mas não tenho absoluta certeza. Vou tentar desinstalar e ver se o sistema estabiliza.

Saturday, April 22, 2006

Mantendo a tradição

Nosso estado é muito cioso de suas tradições, mantemos com muito orgulho a tradição do gaúcho, figura ligada à lida do campo, ao trabalho nas estâncias, com o gado. Essa tradição implica num modo de vestir, nas músicas, na culinária, num linguajar típico, tudo mantido pelos Centros de Tradições Gaúchas - CTG's, espécies de clubes aonde os interessados na nessas tradições, no nativismo, se reúnem. Por sua vez, para que haja uma uniformiidade de propósitos e de procedimentos, existe o Movimento Tradicionalista Gaúcho - MTG, que se encarrega de "legislar para os CTG's filiados.

Esta semana a imprensa noticiou a desfiliação, a expulsão de um dos CTG's - da cidade de Canoas, que faz parte da grande Porto Alegre - por ter quebrado uma das regras impostas pelo MTG. A regra que diz respeito às músicas que podem ser executadas, o indigitado CTG estava misturando um dos ritmos gauchescos, a vanera, com um ritmo moderno, acho que com axé music. Alega o administrador do CTG penalizado, o patrão, como se chama no linguajar gauchesco, que se não houver uma certa "modernização" dos ritmos os bailes promovidos pelo CTG não conseguem reunir um bom público.

Segundo ele, os jovens não estão interessados em bailes em que as músicas executadas são só as tradicionais, dão preferência pelos bailes aonde há ritmos mais modernos. Eu fico pensando se esta é a melhor forma de manter a tradição. Ou se o simples fato de alguns bailes onde a música executada não é a oficial poderia representar um perigo para o movimento. Eu acredito que as coisas boas, as coisas que merecem sobreviver - quase como uma lei de seleção natural - resistem ao tempo independentemente dessas atitudes protecionistas. Mas isso é só um ponto de vista.

Monday, April 03, 2006

Há dias e dias

Para tudo na vida há dias e dias. Dias há em que tudo sai fácil, tudo se encaixa, tudo funciona. E dias há em que nada dá certo, o parto é difícil, nada funciona. O que faz alguns dias serem assim ou serem assado é um mistério pata mim. E provávelmente para o mundo também. Bastasse o querer, todos os dias seriam ótimos para todos, quem em sã consciência iria atrair dificuldade para si? Mas não funciona assim, não há correlação entre os bons e os maus dias e a volição dos seres.

Falo com uma amiga, ela me diz que está seguindo uma nova doutrina, alguma coisa derivada do budismo, eu acho. Uma nova filosofia de vida, com mudanças no modo de pensar, de se alimentar, de se exercitar. O que se espera é melhoras, ninguém faz nada dessa espécie pensando em piorar. Cada vez que eu falo com ela está mal de algo; dias tem problemas digestivos, dias tem problemas de dor de cabeça, ou mau humor, ou um outro problema orgânico qualquer que lhe influência o humor. Sei não, amiga, mas essa sua nova filosofia, sei não...

Continuo com a minha velha filosofia; que principalmente baseia-se na finitude do ser humano. Em outras palavras: Faça o que você fizer, "tu és pó e ao pó voltarás". Ensina humildade: nós somos pó. Ensina finitude: ao pó voltarás. Diante disso tudo, procuro levar a vida com simplicidade e sem inventar muita coisa.

Wednesday, March 29, 2006

Dominadores

Para que exista a classe dos dominadores é necessário que exista a classe dos dominados. Uma classe subtende a existência, ou existe em função da existência da outra. Não só os dominadores, mas existe uma classe de pessoa que necessita e pretende "estar acima ou ser mais do que alguém", ter um status superior aos demais. Em geral esta dominação se dá numa relação de dependência econômica; quando se estabelece uma relação de vassalagem, amo - servo, patrão - empregado, em resumo, quem dá ordens - quem cumpre as ordens. Outros tipos de dominação funcionam em outras sociedades, aindas sujeitas à classes sociais, ou de dominação política ou ainda religiosa sobre os demais.

Esta vassalagem costuma também se estabelecer em algumas relações sentimentais, quando um dos dois envolvidos está apaixonado e o mesmo não acontece com o outro. Normalmente o apaixonado se desdobra, procura fazer todas as vontades da pessoa amada como forma de tentar manter os laços - débeis - da relação. A experiência tem ensinado que as relações desse tipo não perduram; um dos dois lados costuma cansar. Seja o lado "paparicado", seja o lado "paparicante", a verdade é que não há a menor chance de que ela seja uma relação durável.

Existem, é claro, vários tipos de desníveis nos relacionamentos desse tipo, desde aquela em que um está totalmente interessado e o outro completamente desinteressado, até níveis em que, embora os dois tenham interesses, os mesmos não são idênticos, não são de mesma intensidade. Em qualquer um desses casos, o melhor mesmo é não insistir, manter uma relação estando "por baixo" nunca é aconselhável.

Thursday, March 23, 2006

Graus civilizatórios

O que afasta o homem das cavernas é o seu grau de de civilização. Comparar sociedades com diferentes graus civilizatórios é injusto. Uma sociedade desenvolvida, onde os principais problemas atinentes à sobrevivência já foram superados, tem obrigatoriamente que ser mais humana, menos selvagem do que outra em que a luta pela sobrevivência ainda se encontra em seus graus primitivos.

Poderíamos comparar diferentes civilizações, diferentes povos ou nações, alegando que o atual grau civilizatório representa o quanto de desenvolvimento a referida sociedade possuí, ou, por outras palavras, poder-se-ía alegar que se uma sociedade evoluiu é porque acumulou méritos para tanto. O único problema nessa teoria é que não sabemos se houve igualdade de oportunidades ou de tratamento entre as duas nações consideradas ao longo das suas histórias.

Comparar um Japão, que certamente possuí um dos mais altos graus civilizatórios na atualidade, e que foi destruído na Segunda Guerra Mundial, mas totalmente reconstruído com o capital dos aliados, com uma nação africana qualquer não é uma comparação justa. É muito difícil isolar o quanto representa o fator povo isolado nessa equação.

Nessas sociedade menos desenvolvidas, a nossa certamente incluída nesse rol, a luta diária pela sobrevivência ainda é uma realidade. Muitos dos crimes ainda tem o caráter famélico, o caráter da sobrevivência. As oportunidades são restritas, os empregos são excassos, muitas vezes, dependendo do ramo, da qualificação do pretendente, ou da sua idade, são inexistentes.

É muito fácil filosofar de barriga cheia, mas quando o fantasma da fome, da doença, enfim, quando a sobrevivência está em risco, certas atitudes desesperadas começam a fazer todo sentido.

Friday, March 03, 2006

Careca, caraca!

Sempre fui assim, um adepto do oito ou oitenta, bom ou ruim, não sei, mas é o jeito que eu sou, fazer o quê? Nós somos obrigados a conviver conosco mesmo, e essa é a principal e a primeira das aceitações. Quem não se gosta, quem não se ama, não é capaz de nutrir o mesmo sentimento pelo próximo, isso é uma grande verdade.

Pois eu usava cabelo comprido há muito tempo, bota tempo nisso, nem lembro, coisa de mais de quinze anos. Com o tempo fui perdendo cabelo e ficando com cara de publicitário malandro, com o cabelo preso em forma de "rabo de cavalo", sempre com um palmo ou mais de comprimento.

Resolvi que os meus dias de cabelo haviam chegado ao fim. Adotei uma saudável careca. E sabe do que mais? Eu gostei, ficou bem, e não fui só eu que gostei, os amigos dizem até que eu rejuvenesci alguns anos...

Friday, February 17, 2006

Um pajador com pouco se arranja

Nessas campeiradas criolas e nessa vida de guapo, pouco se pode dizer é o que falta e o que precisa um pajador. Com qualquer pouca coisa este índio acostumbrado a passar trabalho se arranja. Um bom pelego, uns trapos, um arroz-carreteiro e o mais a natureza lhe dá.

Friday, February 10, 2006

Bochincho

Bochincho
Autoria: Jayme Caetano Braun

A um bochincho - certa feita,
Fui chegando - de curioso,
Que o vicio - é que nem sarnoso,
nunca pára - nem se ajeita.
Baile de gente direita
Vi, de pronto, que não era,
Na noite de primavera
Gaguejava a voz dum tango
E eu sou louco por fandango
Que nem pinto por quireral.

Atei meu zaino - longito,
Num galho de guamirim,
Desde guri fui assim,
Não brinco nem facilito.
Em bruxas não acredito
'Pero - que las, las hay',
Sou da costa do Uruguai,
Meu velho pago querido
E por andar desprevenido
Há tanto guri sem pai.

No rancho de santa-fé,
De pau-a-pique barreado,
Num trancão de convidado
Me entreverei no banzé.
Chinaredo à bola-pé,
No ambiente fumacento,
Um candieiro, bem no centro,
Num lusco-fusco de aurora,
Pra quem chegava de fora
Pouco enxergava ali dentro!

Dei de mão numa tiangaça
Que me cruzou no costado
E já sai entreverado
Entre a poeira e a fumaça,
Oigalé china lindaça,
Morena de toda a crina,
Dessas da venta brasina,
Com cheiro de lechiguana
Que quando ergue uma pestana
Até a noite se ilumina.

Misto de diaba e de santa,
Com ares de quem é dona
E um gosto de temporona
Que traz água na garganta.
Eu me grudei na percanta
O mesmo que um carrapato
E o gaiteiro era um mulato
Que até dormindo tocava
E a gaita choramingava
Como namoro de gato!

A gaita velha gemia,
Ás vezes quase parava,
De repente se acordava
E num vanerão se perdia
E eu - contra a pele macia
Daquele corpo moreno,
Sentia o mundo pequeno,
Bombeando cheio de enlevo
Dois olhos - flores de trevo
Com respingos de sereno!

Mas o que é bom se termina
- Cumpriu-se o velho ditado,
Eu que dançava, embalado,
Nos braços doces da china
Escutei - de relancina,
Uma espécie de relincho,
Era o dono do bochincho,
Meio oitavado num canto,
Que me olhava - com espanto,
Mais sério do que um capincho!

E foi ele que se veio,
Pois era dele a pinguancha,
Bufando e abrindo cancha
Como dono de rodeio.
Quis me partir pelo meio
Num talonaço de adaga
Que - se me pega - me estraga,
Chegou levantar um cisco,
Mas não é a toa - chomisco!
Que sou de São Luiz Gonzaga!

Meio na volta do braço
Consegui tirar o talho
E quase que me atrapalho
Porque havia pouco espaço,
Mas senti o calor do aço
E o calor do aço arde,
Me levantei - sem alarde,
Por causa do desaforo
E soltei meu marca touro
Num medonho buenas-tarde!

Tenho visto coisa feia,
Tenho visto judiaria,
Mas ainda hoje me arrepia
Lembrar aquela peleia,
Talvez quem ouça - não creia,
Mas vi brotar no pescoço,
Do índio do berro grosso
Como uma cinta vermelha
E desde o beiço até a orelha
Ficou relampeando o osso!

O índio era um índio touro,
Mas até touro se ajoelha,
Cortado do beiço a orelha
Amontoou-se como um couro
E aquilo foi um estouro,
Daqueles que dava medo,
Espantou-se o chinaredo
E amigos - foi uma zoada,
Parecia até uma eguada
Disparando num varzedo!

Não há quem pinte o retrato
Dum bochincho - quando estoura,
Tinidos de adaga - espora
E gritos de desacato.
Berros de quarenta e quatro
De cada canto da sala
E a velha gaita baguala
Num vanerão pacholento,
Fazendo acompanhamento
Do turumbamba de bala!

É china que se escabela,
Redemoinhando na porta
E chiru da guampa torta
Que vem direito à janela,
Gritando - de toda guela,
Num berreiro alucinante,
Índio que não se garante,
Vendo sangue - se apavora
E se manda - campo fora,
Levando tudo por diante!

Sou crente na divindade,
Morro quando Deus quiser,
Mas amigos - se eu disser,
Até periga a verdade,
Naquela barbaridade,
De chínaredo fugindo,
De grito e bala zunindo,
O gaiteiro - alheio a tudo,
Tocava um xote clinudo,
Já quase meio dormindo!

E a coisa ia indo assim,
Balanceei a situação,
- Já quase sem munição,
Todos atirando em mim.
Qual ia ser o meu fim,
Me dei conta - de repente,
Não vou ficar pra semente,
Mas gosto de andar no mundo,
Me esperavam na do fundo,
Saí na Porta da frente...

E dali ganhei o mato,
Abaixo de tiroteio
E inda escutava o floreio
Da cordeona do mulato
E, pra encurtar o relato,
Me bandeei pra o outro lado,
Cruzei o Uruguai, a nado,
Que o meu zaino era um capincho
E a história desse bochincho
Faz parte do meu passado!

E a china - essa pergunta me é feita
A cada vez que declamo
É uma coisa que reclamo
Porque não acho direita
Considero uma desfeita
Que compreender não consigo,
Eu, no medonho perigo
Duma situação brasina
Todos perguntam da china
E ninguém se importa comigo!

E a china - eu nunca mais vi
No meu gauderiar andejo,
Somente em sonhos a vejo
Em bárbaro frenesi.
Talvez ande - por aí,
No rodeio das alçadas,
Ou - talvez - nas madrugadas,
Seja uma estrela chirua
Dessas - que se banha nua
No espelho das aguadas!

Tuesday, January 31, 2006

Pajador

Pajador é o aportuguesamento de payada, forma poética de origem platina - argentina e uruguaia -, com estrofes de 10 versos em redondilha maior. Os pajadores - ou payadores - tem origem nos trovadores da idade média, e usam do canto como forma de narrar os feitos heróicos e do dia-a-dia da lide campesina.

Na literatura a mais conhecida das "payadas" é o poema épico Martín Fierro de 1872, de autoria do argentino José Hernández. A payada tem mais representantes no Uruguai e na Argentina, no Brasil, Jayme Caetano Braum -já falecido - é considerado o maior pajador brasileiro.